História da Ponte Socorro

Conheça a história da ponte


Ponte da Dr. Rebouças

Pioneira no estado de São Paulo Amariles A Mantovani é uma socorrense apaixonada por Socorro e como todos nós, bastante “coruja”. Diz que “briga se alguém falar mal de nossa terra”, e foi através dela que tomamos conhecimento de um fato desconhecido dos socorrenses.
Lita, como é mais conhecida, tem uma amiga que trabalhava na Secretaria da Educação, Liane Maranhão Pereira, que lhe mostrou a resenha de um livro “O Concreto no Brasil”, escrito pelo engenheiro Augusto Carlos de Vasconcelos, formado pela Escola Politécnica de São Paulo, autor de vários livros, pesquisador e professor universitário, hoje aposentado.
Na resenha do livro, Lita encontrou um trecho onde o autor fala sobre um artigo publicado na revista Polytechnica, nº 31/32, de 1910, sob título “Concreto Armado em Soccorro”, que fala de uma “obra pioneira”, descrevendo “a ponte construída pela Cia. Mogyana de Estradas de Ferro na Avenida Pereira Rebouças sobre o Ribeirão dos Machados, com 28m de comprimento”, inaugurada em 3 de maio de 1910. Essa foi a primeira ponte de concreto construída no estado de São Paulo e por ter sido pioneira, “é natural que tenha havido o máximo cuidado na aplicação do concreto, seguido as mais recentes especificações e recomendações estrangeiras da época”.
Entusiasmada com o que estava lendo, Lita continuou suas investigações e conseguiu o telefone do engenheiro Augusto, hoje com 78 anos, que a recebeu em sua casa e entregou-lhe xerox das páginas de seu livro, que fala de Socorro e que se encontra com edição esgotada. “Ele foi super gentil, conta Lita. Falava da ponte com entusiasmo, como se fosse socorrense. Ficamos conversando um longo tempo e foi ótimo conhecê-lo”.
Mas Lita resolveu ir mais fundo, em busca dos dados sobre a ponte e entrou em contato com a Biblioteca Central da Escola Politécnica na USP para saber se tinham a revista com aquele artigo citado no livro do engenheiro Augusto. Foi com emoção que conseguiu cópia do artigo, autenticada pela escola.
“Concreto Armado em Socorro” é um artigo escrito em 3 de outubro de 1910, pelo engenheiro Guilherme E. Winter, autor do projeto da ponte junto com Ernesto Chagas, no qual ele descreve todas as dificuldades encontradas para sua construção e especifica todas as medidas e passos tomados. Logo no início, diz que a Companhia Mogyana “resolveu construir a ponte em concreto armado que tão bem se presta à esthética das obras d’arte, pelo aspecto audaz e elegante que lhes imprime e que sahe fora dos moldes do typo usual de pontes que se encontra no interior”.
No que se refere a pontes, esta foi a primeira obra em São Paulo devidamente documentada e descrita, com fotos e especificações.
O resgate de uma parte de nossa história foi conseguido pela curiosidade e entusiasmo de Lita, que merece nossos aplausos. Os pesquisadores conhecem a dificuldade de se conseguir dados comprovados da história e Socorro deve se orgulhar dessa sua filha que nos proporcionou dados tão importantes.
Quando passarmos, agora, sobre a velha ponte, poderemos nos orgulhar e dizer a todos que “esta é a primeira ponte de concreto armado do estado de São Paulo, construída pela Cia. Mogyana de Estradas de Ferro e inaugurada em 3 de maio de 1910”.
Há 91 anos ela liga o centro da cidade primeiro à Estação Ferroviária, hoje, à Estação Rodoviária. São 91 anos de serviços prestados à população.

Concreto Armado em Socorro
Artigo publicado em 1910

Reconhecida a difficuldade de um futuro prolongamento da linha, o primitivo projecto de ponte terminal do Ramal de Soccorro, nesta cidade, foi alterado, passando a Estação a ficar situada na extremidade de uma tangente, com cerca de um kilometro de extensão, á margem esquerda do Rio do Peixe.
Se de um lado facilitou-se o prolongamento da linha, por outro affastou-se mais a Estação do centro commercial da cidade para uma posição de accesso relativamente difficil principalmente na época das chuvas em que um ribeirão, o dos Machados, situado entre a estação e a cidade, alaga os terrenos intermedios.
Como solucção immediata do problema, impunham-se: a construcção de uma ponte sobre o ribeirão e a execução de uma boa estrada, futura rua, com fracas declividades e ao abrigo das águas das enchentes.
A Companhia Mogyana chamou logo a si esse serviço e, generosamente, á sua custa, tomou a peito realisa-lo
E, fez mais: a estrada de rodagem substituio por uma Avenida de 15,00ms de largura e resolveu construir a ponte em concreto armado que tão bem se presta á esthetica das obras d’arte, pelo aspecto audaz e elegante que lhes imprime e que sahe fóra dos moldes do typo usual de pontes que se encontra no interior.
O ribeirão, normalmente com 2,00ms, de largura e menos, na época das águas algmenta consideravelmente de volume exigindo uma grande vasão como uma das características da ponte.
Escolheu-se o typo de ponte em arco, uma aza de cesto, e os encontros vasados também por arcos de modo a, no caso de uma cheia anormal, virem em auxílio do arco central, alliviando-o na passagem das águas. Em suas linhas geraes a ponte em questão, de 28,40 ms. de comprimento, tem seu taboleiro assentando em 3 arcos: o central, em aza de cesto, de 3 centros, com 12,00 ms. de vão livre e 3,00 ms. de flexa, 1/12 portanto de abatimento e, os outros dois, plenos, de 4,00 ms. de diâmetro, constituindo o vasamento dos encontros. Sua largura é de 9,00 ms., dos quaes, 6,00 ms. de parte carroçável e 1,50 m. de cada lado, formando os passeios.
O encontro da margem direita assenta directamente no solo (com um colchão de 0,10 ms., após seccamento, de pedra britada) regular como fundação, mas, francamente aceitável devido a sua grande área e consequente pressão especifica muito pequena. Devido a se manter uniforme a natureza do terreno, á maior ou menor profundidade de escavação, o vasamento desse encontro trouxe como conseqüência a independência do embasamento geral dos pequenos anneis, de um e outro lado, ficando uma das sapatas em nível inferior á outra.
O encontro da margem esquerda, assentando sobre uma sapata única, foi, devido á pessima natureza do terreno, construído sobre estacaria. O serviço de estaqueamento durou cerca de 2 mezes, foi feito com dois bate-estacas (582 e 562 kg respectivamente) servidos a principio com trabalho manual e logo depois substituído pelo mecânico, o que veio augmentar de cerca de 5 vezes o rendimento do serviço.
Foram estaqueados 42 pontos com elementos de esquadria 0,25 x 0,25 ms. de peroba, batidos até á nega de 2,50 cms. Para uma queda do peso de 4,00 ms. de altura, dez vezes repetida. É bom notar o máo resultado dessa grande altura da queda para madeiras de grande resistência, principalmente quando seccas, mormente em se tratando da peroba em que as fendas são tão communs.
A penetração máxima de uma estaca foi 24,00 ms abaixo do nível ao fundo do ribeirão.
A sapata de fundação, de 0,15 m. de espessura, de 5,00 ms. por 9,00 e 2,00 x 9,00 ms., no encontro da margem direita e de 8,20 x 9,00 ms., única, no da esquerda, assenta sobre uma camada de 0,10 ms, após soccamento, de pedra britada. Sempre que possível foram empregados grandes soquetes de 20 kgs e nos caixões dos muros usados em forma de cunha, para melhor destribuição da pressão. O concreto, no traço de 1:4:8 (barricas) nas fundações e muros, e 1:3:6 nos anneis, foi sempre cuidadosamente misturado a secco e usado em farofa de modo á só lacrimejar depois de por algum tempo ter soffrido acção do soquete.
A armação geral da ponte foi toda feita com ferros redondos de 0,01 m e 0,005 m., espaçados nos muros, taboleiro e sapata de 0,20 m, eixo a eixo e dispostos de forma tal a apresentarem-se sempre os elementos de maior diâmetro onde pudessem apparecer esforços tractivos.
Do radier e dispostos parallelamente ao eixo longitudinal da ponte, espaçados de 1,00 m entre eixo, nascem os muros que vão supportar o taboleiro da ponte e ao mesmo tempo servir de apoio, de um lado aos anneis de 12,00 m e do outro aos de 4,00 m que vasam os encontros.
Esse muros quando resistindo ao empuxo do grande arco tomam a forma de um triangulo rectangulo, do qual, uma tangente, nos rins, á curva do extradorso é a hypothenusa e um dos cathetos, o da base, tem uma dimensão egual a 5,00 m.
No primitivo projecto da ponte o taboleiro assentava sobre uma superfície cylindrica o que foi posteriormente modificado reduzindo-se a secção de trabalho a simples anneis, de 0,40 m de largura por 0,15 m de espessura no fecho e 0,25 m nos rins.
Nesse anneis os ferros foram dispostos com cuidado especial e o soccamento do concreto cuidadosamente feito, de modo tal a não permitir ausência do metal onde apparecessem esforços de tracção.
O taboleiro da ponte, constituído por uma camada de concreto de 0,15 m, tem como reforço, longitudinalmente, de metro em metro, um trilho de 19,5 k por m corrente.
Esses trilhos assentam nos fechos dos anneis e descançam sobre os muros que nascem nas sapatas. Sobre o taboleiro existe um colchão de terra de 0,25 m de alto.
Constituindo uma amarração entre os anneis existem uns tarugos, em concreto armado, de 0,15 m por 0,15 m.
Os muros extremos, transversaes, constituindo os topos da ponte e servindo de amparo ás terras, são de 0,08 m de espessura.
A experiência de resistência da ponte foi feita com carregamento de trilhos e dormentes, distribuídos da forma mais desfavorável, chegando-se a ter collocado a enorme carga de 1.400 kg por metro quadrado. A pequena flexa, marcada durante a experiência, no centro da ponte, desappareceu por completo quando descarregada.
Como se vê nas photographias não se descurou do aspecto architectonico da obra.
A importância dos encontros dos grandes anneis foi evidenciada com pilastras e contrapilastras decoradas com canelluras e encimadas com um florão em estuque.
Em continuação a essas pilastras foram construídos supportes para os combustores da iluminação e com maiores dimensões de modo a deixar á mostra os grandes elementos de resistência da obra.
O guarda-corpo da ponte é feito com canos de 1"e 1/2" fixado, por meio de montantes, também de concreto armado, com molduras interrompidas e cuidadosamente feitas. O revestimento, todo executado de cimento branco e commum, completam o acabamento da obra, pondo em relevo as diversas molduras, destacando-as perfeitamente dos planos secundários.
S. Paulo, 3 de Outubro de 1910. - Guilherme E. Winter
Revista Polytechnica Nº 31/32 (Páginas de 24 a 28), Maio - Outubro de 1910 -S. Paulo-Biblioteca da Escola Politécnica de São Paulo USP.

O Concreto no Brasil

O engenheiro Augusto Carlos de Vasconcelos, formado pela Escola Politécnica, nasceu no Rio de Janeiro em 1922 e, a partir dos 10 anos, morou em Santos e em São Paulo. No Magistério Superior foi Professor Assistente da Escola Politécnica e Professor Titular da Escola de Engenharia Makenzie. Em seu livro “O Concreto no Brasil” fala da ponte construída em Socorro, ressaltando o pioneirismo dessa obra, em concreto, no estado de São Paulo.
No que se refere a pontes, a primeira obra em São Paulo, devidamente documentada é descrita na Revista Polytechnica n.º 31/32 (17) de 1910, em artigo intitulado “Concreto Armado em Socorro”. O engenheiro GUILHERME E. WINTER, autor do projeto junto com ERNESTO CHAGAS, descreve a ponte construída pela Cia. Mogyana de Estradas de Ferro na Av. Pereira Rebouças sobre o Ribeirão dos Machados, com 28m de comprimento. Esse ribeirão possui normalmente apenas 2m de largura, podendo atingir em época de chuvas até 20m. Daí a necessidade da ponte com 28m. A Mogyana havia construído a estação terminal um pouco afastada do centro da cidade para evitar despesas com desapropriações com a planejada extensão da linha férrea. Para possibilitar o acesso à estação, projetou e construiu por sua conta, com seus próprios funcionários, a ponte que se reproduz na figura 11, ainda existente e em perfeito estado de conservação. Sendo esta uma obra pioneira (**), é natural que tenha havido o máximo cuidado na aplicação do concreto, seguindo as mais recentes especificações e recomendações estrangeiras da época. Por isso repetimos as informações que constam de a respeito da dosagem e aplicação do concreto: feito com pedregulhos retirados do rio, com 250 kg de cimento por m3, de traço 1:3:6 e consistência “farofa”; foi lançado nas formas dos arcos de 15/40 cm em pequenos baldes e socado com um macête “até lacrimejar”. Percebe-se daí a perfeição da aplicação do concreto e portanto o motivo de conservação perfeita da obra confirmando o princípio hoje universalmente aceito de que “a melhor proteção da armadura contra a corrosão é um concreto bem feito”.
Essa obra foi armada com vergalhões de aço, classificando-se portanto como concreto armado com o sentido que hoje se lhe dá. A laje do tabuleiro entretanto, com 3 m de vão, é apoiada no fecho dos arcos (9 ao todo, um em cada metro de largura do tabuleiro) e na pilastra, sendo armada com trilhos usados.
(**) Foi inaugurada em 3/5/1910, (21) pág. 133
Transcrito do Livro "O Concreto no Brasil", volume 1, 2ª edição (PINI), em 1992.



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